Fotos- Arquivo Pessoal 

Em 2019 precisei escolher o tema do meu tcc, já sabia que precisava ser algo relacionado com fotografia e algum tema que fosse relevante e que falasse de mulheres. Comecei a pesquisar e pensar no que eu poderia problematizar dentro da minha própria realidade. Há dois anos me mudei para a cidade onde moro hoje e onde finalizei minha graduação, uma cidade pequena no interior de Santa Catarina, completamente diferente da minha cidade de origem. Nessa nova cidade encontrei uma nova realidade, com pessoas diferentes, costumes diferentes e pensamentos diferentes.

Com todas essas mudanças foi difícil me adaptar e cada aspecto diferente me impactou de uma forma. E a aparência, relação com o corpo, também foi difícil. Me deparei com um lugar onde as pessoas seguem um padrão estético bem forte, onde é difícil encontrar pessoas que estejam acima do peso, e também foi nítido que as pessoas que fogem a esse padrão não são muito bem vindas, isso desde ao peso até o jeito de falar e se expressar. Assim, não foi muito difícil escolher o tema, que já estava sendo problematizado inconscientemente na minha cabeça.


 Ingridy Svidnicki,21anos, publicitária. 

Chegando nessa cidade nova eu não conseguia mais encontrar roupas que coubessem em mim, nenhuma loja, nenhuma seção específica, nada. Juntando essa minha nova realidade com os estudos que estava fazendo, depois de muito trabalhos a ajustes, cheguei ao tema da minha pesquisa, que foi: Mulheres Plus Size e a influência do mercado da moda na autoaceitação. E o formato que foi uma fotorreportagem, que foi escolhido devido a falta que sempre senti em ser representava. Filmes, tvs, revistas, comerciais, propagandas, brinquedos... quantos desses são feitos com mulheres gordas? Ou baixas? É possível contar nos dedos quantas vezes mulheres gordas são representadas em algo imagético. Por isso, a fotorreportagem, para compor que representação que sempre devia ter existido, mas não existe.


Valdicélia de Oliveira, 50 anos, professora.

Durante a pesquisa para o trabalho o maior obstáculo foi encontrar essas mulheres plus size, mas não foi difícil porque elas não existem, foi difícil porque elas não queriam falar sobre o assunto. Por que o assunto ainda as machuca muito, porque qualquer tipo de exposição dói, traz vergonha. Depois de receber muitas respostas negativas encontrei duas irmãs, com a ajuda de uma amiga, que mudaram rumo que a pesquisa estava levando. Muitas vezes pensei em desistir, mas depois de achar as primeiras pessoas nessa cidade que me receberam e que receberam meu trabalho, tudo foi diferente. Essas irmãs que fotografei primeiro são irmãs gêmeas e a sessão com elas foi incrível, cheia de vida, inspiradora, e rendeu fotos que para mim são inesquecíveis.

No total foram 5 mulheres fotografadas, com idades diferentes, histórias diferentes, olhares diferentes sobre a vida, mas todas tinham em comum uma força incrível. Algumas sempre estiveram acima do peso, alguma engordam e emagrecem dependendo da fase da vida em que estão, outras nem se pesam ou nem percebem que “existe um peso para se estar acima”, algumas já sofreram para emagrecer, tomaram remédios, ficaram mal... mas essas 5 mulheres tiveram um momento em que pararam e pensaram que nada disso valia a pena, que não valia a pena se sacrificar por uma imagem que os outros em algum momento ensinaram que era a certa. Essas mulheres ainda sofrem todos os, claro, com a pressão da família, dos amigos, do meio em que estão inseridas e por tantos outros. Contudo encontraram dentro de si força para seguir em frente independente das opiniões alheias e enfrentar todos esses obstáculos, um de cada vez.



Rafaela Sanders, 19 anos, estudante de farmacia. 

Tiveram mulheres que entrevistei e não quiseram ser fotografadas, mas que contribuíram muito com seus depoimentos. Mulheres que sofrem por não conseguirem se amar, que sofrem em silencio todos os dias, que morrem de medo de aparecer de qualquer maneira para que ninguém repare em seus corpos. Essas mulheres são tão fortes quantos qualquer outra, por conseguirem encarar todo esse julgamento e sofrimento por toda a vida mesmo sabendo que não tem culpa de nada, mesmo sabendo que não fazem nada de errado.

Nos ensaios fotográficos deixei as mulheres bem a vontade para usaram as roupas que quisessem, para elas mesmas escolherem o local onde queriam ser fotografas e como as fotos seriam feitas. Algumas ficaram bem a vontade, outras mais tímidas, mas cada uma com uma personalidade e diversas histórias para contar. Depois de todos os ‘nãos’ que recebi e todos os ‘sins’, depois de todas as pessoas que conheci, as histórias que ouvi, os sofrimentos que compartilhei e os sorrisos e fotografei, aprendi a procurar a força que preciso em mim mesma, procurar a aceitação que preciso em mim mesma. “Como amar se não amo a mim mesma?”, nunca fez tanto sentido. Aprendi que no final está tudo bem. Tudo bem não agradar os outros, tudo bem não estar bem e também que ser quem eu sou me faz bem.

Ao final dos cinco ensaios meu maior desejo foi que essas fotos pudessem servir de exemplo para tantas outras mulheres que não se veem representadas, que não conseguem se encontrar, nem se ver em outro alguém. Espero que essas meninas, mulheres, possam ver cada sorriso nessas fotos e entender que está tudo bem ser quem você é.


Quem escreveu esse post foi Thais Chaves, fotografa atualmente mora em união da vitória - PR 
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